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Entrevista
 

As mulheres e a reforma Protestante, desde América Latina

“Por desgraça, nem as igrejas em seu conjunto, nem as pessoas têm interesse no passado, com raras excepções”, reflexiona a historiadora brasileira de confissão batista Rute Salviano Almeida.

México 03 DE JULHO DE 2016 09:55 h
Rute Salviano Almeida.

Rute Salviano Almeida nasceu em Belo Jardim, Pernambuco, Brasil. Casada, com três filhos, é membro da Igreja Bautista de Cambuí, em Campinas. Foi professora da Faculdade Teológica Batista de Campinas por quase 20 anos. Conversou com Leopoldo Cervantes-Ortiz sobre as mulheres e a reforma Protestante na seguinte entrevista.



P. Estimada Rute, fale-nos de você, de sua experiência como crente batista.



R. Nasci num lar cristão. Meu pai era um homem temeroso de Deus que foi expulso de casa por sua conversão ao Evangelho de Cristo. Mas, graças a Deus pôde ver a toda sua família convertida. Tenho vivido muito tempo em São Paulo, onde a partir de 10 anos, quando fui batizada, senti alegria por participar em toda a obra da igreja. Aos 13 anos já era professora de crianças, e já maior, ocupei outros cargos. Encanta-me a igreja batista: suas doutrinas sólidas baseadas no Novo Testamento, seu batismo só após uma declaração pessoal de fé e sua autonomia administrativa.



P. Diga-nos como surgiu sua vocação de historiadora, especialmente no âmbito religioso protestante.



R. Quando me mudei a Campinas, já casada e com filhos, tive a oportunidade de ensinar no Colégio Teológico Batista da cidade. Já tinha um título em Estudos Sociais, suficiente para ensinar meu primeiro curso de história sobre os batistas. A seguir, fiz uma licenciatura em Teología e também ensinei outros temas. Apaixonei-me da história do cristianismo, mas sempre sentia a falta dos relatos do sexo feminino. De maneira que, ao iniciar os cursos de docente, decidi pesquisar mais sobre esse tema e escrevi uma tese sobre o papel da mulher na reforma Protestante. De ali surgiu meu primeiro livro, Uma voz feminina na Reforma. Posso dizer que sou uma historiadora da igreja, só por ser protestante, como esta é a história que me apaixona, pois apresenta os acontecimentos e personagens que fizeram a história do cristianismo.



P. Em sua longa experiência como docente, considera você que às igrejas lhes interessa aprofundar no sucedido na história anterior das mesmas?



 



O livro Uma voz feminina na Reforma.

R. Por desgraça, não. Nem as igrejas em seu conjunto, nem as pessoas têm interesse no passado, com raras exceções. Muitos vêem a história passada como algo que já tem ocorrido e que não lhes diz nada. Falta a visão da função pedagógica da história, perceber como podemos aprender dela e como podemos enriquecer nosso presente e melhorar nosso futuro com um entendimento do que fizeram nossos antepassados. Escrevi revistas sobre a história de nossas igrejas: Celebrando o Centenário, que comemora o centenário da Primeira Igreja Batista de Campinas, e Celebrando o passado, desafiados ante o futuro, em comemoração do 80º aniversário da Igreja Batista de Cambuí, minha comunidade atual. Foi impactante a visão dos lucros de nossos fundadores e de todo o realizado, mas o ato se converteu numa comemoração restringida à temporada e uma lembrança bastante fugaz.



P. Vemos que tem estudado profundmente a história da Reforma Protestante. Qual considera você que é sua vigência agora que se acercam os 500 anos de seus inícios?



R. Alegra-me ver que a Reforma segue sendo relevante para a maioria dos protestantes. No Brasil, temos igrejas e movimentos que celebram todos os anos este movimento. Tive a alegria de participar no primeiro Congresso “Reforma Hoje”, em Caruaru, Pernambuco (meu estado natal) em outubro do ano passado. Foi um evento muito bom pois levou a muita gente a celebrar a Reforma, e em especial a ser conscientes da importância da graça de Deus que outorga a salvação só em Cristo e é só mediante a fé, dado que somente a Biblia é a Palavra de Deus e só a ele se deve todo a honra e glória. Sem a Reforma, sabemos que não poderíamos existir como igrejas.



P. Como iniciou seu interesse nas mulheres relacionadas com a Reforma Protestante?



R. Sempre me tem apaixonado a Reforma, pois quando tinha que fazer alguma prova para ensinar nas escolas seculares, elegia este movimento como tema. Vibro muito ao ler a respeito de como Deus guiou àqueles homens tão valentes em seus cargos eclesiásticos a deixar tudo pela simples fé no Evangelho. Emociona-me ler as histórias de como, só lendo a Biblia, seus olhos se abriram  para se ver por si mesmos os erros da Igreja, e sobretudo para entender a maravilhosa graça de Deus. De modo que, ao começar meus estudos de pós-grado, já tinha a convicção de que a época que estudaria seria a dos inícios da era moderna e o movimento de Reforma. As mulheres surgiram ante mim como algo natural. Adverti que faziam falta relatos sobre elas. Os historiadores positivistas, cujos livros se utilizam mais, não falam nada sobre elas. Alguns as citam unicamente quando estão associadas a homens poderosos.Precisava descobrí-las, me urgía conhecê-las e isso foi o que fiz.



P. A figura de Margarita de Navarra, à que dedicou você um livro completo, não é muito conhecida em América Latina. Como apresentaria você às leitoras evangélicas?



R. Quando “descobri” a Margarita de Navarra, fiquei impressionada. Apesar de que era professora de história do cristianismo, não sabia nada ao respeito. Estava a preparar uma conferência sobre Calvino e encontrei a esta maravilhosa personagem, porque foi ela quem deu refúgio ao reformador quando fugiu da perseguição na França. Apresento-a como uma mulher humanitária, alguém a quem se lhe deu o título de “primeira ministra dos pobres”, apesar de que era a rainha de Navarra. Também a apresentei como uma escritora criativa. Numa época tão imoral, quando a corte francesa se deleitava com a leitura dos contos do Decamerón, de Boccaccio, ela escreveu o Heptamerón, no que denunciou aos clérigos imorales, pelo que se arriscou a ser assassinada. Esse foi seu recurso, introduzir a moralidade, o modelo bíblico para um público que não lia a Biblia. Ao final de cada conto pôs um comentário, um versículo da Biblia.



Apresentei-a, ademais, como filha, irmã, esposa e mãe dedicada, uma mulher como nós. Se apegou muito aos seus, independentemente de seus defeitos. E finalmente apresentei-a como uma reformadora que lutou pela causa, criando em seu reino um ambiente propício para o movimento. Deu refúgio a perseguidos reformadores, solicitou e conseguiu de seu irmão Francisco I, rei do França, a quem Calvino dedicou a Instituição, o perdão e a cancelamento de muitos processos, incluindo do próprio Calvino, com quem manteve correspondência. Em seu reino de Navarra, o jantar distribuía-se em suas duas partes, os sacerdotes podiam casar-se e levavam roupa de rua, além de que o idioma para o culto não era o latín, e sim o da gente. Quando morreu, o tributo mais importante que se lhe ofereceu foram as lágrimas derramadas por seu povo ao redor de sua tumba.



P. Também tem estudado às beguinas e, em particular, a Margarita Porette. Que importância têm movimentos femininos como esse na história da cristiandade em geral?



Uma voz feminina submetida pela Inquisição.

R. Encontrei-me com as beguinas ao final da Idade Média, personagens sobre as que trata meu livro Uma voz feminina submetida pela Inquisição. As beguinas eram intensamente religiosas. Queriam servir a Deus, não enclaustradas, sinão no serviço aos demais. Reuniram-se em pequenas casas chamadas beguinarias, onde davam as boas-vindas aos grupos mais precisados, doentes e desprezados pela sociedade, como as prostitutas e os leprosos. Foram pastoras de rebanhos sem pastor. Alimentaram o corpo, fez-se cargo do físico e também do alma, ensinando a Palavra de Deus em seu idioma. Isto foi considerado um sacrilegio porque a linguagem permitida para a mensagem sagrada era somente o latín. E, por escrever e pregar no idioma da gente foi a beguina itinerante Margarita Porette foi acusada pela Inquisição e levada à fogueira. Ela escreveu o Espelho das almas simples e aniquiladas por amor a Deus, que descreve a trajetória de um alma até a aniquilação total.



Eram ideias contrárias à pregação da Igreja e inclusive contrárias a nosso próprio entendimento e à posterior pregação da Reforma sobre a salvação pela fé e não por obras. Para Porette, tinha que fazer um esforço, um caminho a seguir para que a pessoa atingisse a salvação. Não era uma mensagem ortodoxa, mas também não deveu ser razão para um castigo tão severo. Mas essa época foi de forte perseguição contra todo pensamento rebelde. Seu livro foi queimado, e a ela se lhe proibiu difundir sua mensagem, mas não obedeceu e foi queimada por não retratar-se de suas crenças. Serenamente chegou até a fogueira e muitos choraram ao vê-la em seus últimos momentos.



P. Sobre outra de suas obras, que conclusões obteve você depois de estudar as “vozes femininas nos inícios do protestantismo brasileiro”, tal como se titula seu livro?



R. Meu terceiro livro foi sobre Brasil, meu país, a respeito do período do imperador Dom Pedro II, sobre a escravatura, e o difícil início do protestantismo: perseguições, discriminação, epidemias e tantas outras coisas que serviram para desalentar aos menos constantes. No entanto, as mulheres que se estudam ali cumpriram amplamente seus papéis como educadoras, esposas de pastores, evangelistas, missionárias à gente do campo e dos indígenas, investigadoras, maestras de música, etc.. Enfrentaram com fé a perda de filhos e de maridos, doenças, inundações, dificuldades financeiras, longas distâncias a percorrer em lombos de cavalos, barcos, etc.., a fim de levar o Evangelho. Acho que quem aprendem mais sobre esta história são os pesquisadores.



Tenho aprendido muito destas mulheres. Aprendi a ter mais fé, a não desanimarme tão facilmente, a me centrar e desenvolver o dom espiritual outorgado por Deus. E aprendi que a vida em comunión com Deus é o mais precioso que temos nesta vida terrenal e que é o que nos garante a paz, a alegria e a fé, muita fé. Cheguei à conclusão de que as verdadeiras cristãs só precisam a autorização de Deus para levar a cabo com excelência seus ministérios. Elas não procuram títulos, posições prominentes nem nada que as faça destacar aqui na terra. Como cidadãs do céu, procuram a santificação e estão dispostas a ajudar aos necesitados de corpo e alma.



P. Você considera que algumas dessas mulheres pioneiras podem ser modelos para as mulheres evangélicas da atualidade?



R. Não há dúvida. Estou muito feliz, ao começar a divulgar este livro, porque meu objetivo ao escrevê-lo está a cumprir-se totalmente. O que desejava ao pesquisar e escrever, e ainda almejo ardentemente, era exatamente isso: que as vidas de nossas pioneiras sirvam de inspiração e modelo para outras mulheres. Na semana passada recebi uma mensagem de uma leitora que apresentou algumas personagens num “Café de mulheres” e disse que tinha sido um momento muito inspirador. Graças a Deus, estou a desempenhar um papel alocado por Cristo ao falar da mulher que o ungió: “De verdadeiro digo-vos: onde quer que se pregue em todo mundo este Evangelho, também contar-se-á o que ela fez, em memória sua” (Mateo. 26.13). Conto histórias de mulheres cristãs, pesquiso e escrevo sobre elas para manter vivo sua lembrança e como fonte de inspiração para todos os que vivemos neste século.



P. Finalmente, que diria você às mulheres cristãs que nos diversos países latino-americanos estão em procura de identidade para consolidar uma maior presença no âmbito eclesial e pastoral?



R. Deixe-me falar primeiro dos livros que ainda não têm sido publicados. Para completar a série “Vozes femininas na história do cristianismo”, falta o de Vozes femininas no começo do cristianismo, que já está escrito e publicar-se-á em 2017, ao que seguir-lhe-á Vozes femininas nos avivamientos, que ainda estou a preparar. Bom, o que posso dizer a nossas queridas mulheres às quais admiro muito pela fé, pelos serviços prestados a suas igrejas e porque não se desaniman, não importa quais sejam as circunstâncias.



Quero dizer-lhes, amadas irmãs, que ao aprender com a história, com todo o que já fizeram aquelas que nos precederam no serviço do Reino, tenho uma só interpretação: independentemente de qualquer coisa, as mulheres entenderam que importa mais obedecer a Deus que aos homens. As mulheres dos inícios do cristianismo não foram destacadas sinão até que colaboraram inclusive na tradução da Biblia ao latín, a Vulgata; Paula e Eustoquia foram auxiliares competentes de San Jerónimo. As mártires deram suas vidas com alegria porque para elas o que importava era ser reconhecidas como cristãs.



As mulheres de finais da Idade Média que foram perseguidas e inclusive queimadas pela Inquisição, estavam preocupadas por socorrer aos mais necesitados, por se dar a si mesmas, por amar, e com isso demonstraram que eram discípulas de Cristo. As mais eruditas na época da Reforma, que tiveram acesso aos novos conhecimentos, difundiram a fé cristã em sua forma mais pura e com grande criatividade. Margarita de Navarra disse que ansiava uma religião de amor, e que ela não gostava das discussões ostentosas.As mulheres são diferentes, seus discursos e escritos são diferentes, mas também apresentam as boas novas. As mulheres de um passado mais recente, pioneiras em países que ainda não conheciam o protestantismo, entregaram suas vidas para evangelizar e civilizar a outros povos.



Todas elas nos inspiram e nos deixaram uma importante lição: “Mulher, não enterres teu talento, se se lhe impede exercer seu dom espiritual por qualquer razão, sabe que Deus dar-te-á a oportunidade de fazer, de acordo com sua vontade. Recorda que sua vontade é boa, perfeita e agradável. No tempo de Deus e, por tanto, no momento adequado, acho que abrir-se-ão mais portas para nós para exercer nossa vocação e sem tantos impedimentos. Se as portas de nossas igrejas fecham-se para que o corpo de Cristo possa ser construído por meio de nós, não te aflijas, Deus conhece todas as coisas e somente na eternidade será aquilatada a perda, o dano produzido pela falta de liberdade no exercício dos dons espirituais dados também para todos os crentes em Cristo.Deus é quem capacita-nos, e a ele se deve dar todo a honra e glória. Alegremos-nos nele e procuremos sua graça, que é suficiente para nós e seu poder se aperfeiçoa em nossa debilidade.Que Deus as abençõe!



 



MAIS SOBRE RUTE SALVIANO ALMEIDA



Rute Salviano Almeida é licenciada em Estudos Sociais, licenciada em Teología (especializada em Educação Cristã), professora de Teología (énfase em Historia da Igreja) e pós-graduada em Historia do Cristianismo pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).



Foi redatora das revistas Celebrando ou centenário, comemorativa dos 100 anos da Primeira Igreja Batista de Campinas, e da Celebrando o passado, desafiados pelo futuro, comemorativa dos 80 anos da Igreja Batista de Cambuí. Tem publicado poemas na Editorial Litteris. Escreveu o livro Uma voz feminina na Reforma. A contribuição de Margarita de Navarra à reforma religiosa (2010), Uma voz feminina submetida pela Inquisição: a religiosidade ao final da Idade Média. As beguinas e Margarita Porette (2012), e Vozes femininas nos inícios do protestantismo brasileiro. Escravatura, império, religião e o papel feminino, 2014, pela Editorial Hagnos (São Paulo).



Seu  lugar web personal. Tres entrevistas com ela podem lerse aquí.


 

 


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