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A morte de Gadafi

Muamar o Gadafi forma já parte desse reduzido número de imortais com cabeça de ouro e pés de barro.
ENFOQUE 16 DE NOVEMBRO DE 2011

Contemplei o espetáculo desde a habitação que ocupava em um hotel de Torreón, no norte do México, onde me encontrava ministrando um ciclo de cinco conferências sobre escritores espanhóis e latinos.



As imagens originais foram tomadas pela televisão árabe Al Arabiya. Gadafi foi capturado no passado 20 de outubro em um esgoto de Sirte, a aldeia beduina na que nasceu faz 69 anos, caçado como coelho em toca por soldados antigadafistas que outrora idolatravam ao líder desmoronado. Morreu de um disparo na cabeça, segundo o resultado da autópsia. O corpo, meio desnudo, foi exibido em uma câmara refrigerada em Misrata, cidade onde começaram os primeiros levantamentos contra seu regime. Como em uma cerimônia da Santa Morte os soldados vencedores desfilavam eufóricos filmando o cadáver com seus celulares.



Nenhum respeito pelo líder derrotado nem pelo corpo sem vida, um sacrilégio condenado pela lei do Islã. Os revolucionários, apontava Sartre, se transformam em “jaulas linchadoras” no calor da batalla.



Alí esteve o morto até que o olor e a decomposição fez urgente seu enterro. “Já não aguentava mais”, declararam fontes do Conselho Nacional de Transição (C.N.T.). Era um lazar a quém ninguém queria em seu chão. Foi enterrado em uma tumba anônima em algum lugar do deserto líbio, em meio do nada. Aos coveiros lhes forçaram jurar diante o alcorão que nunca revelariam o lugar onde ficaram os ossos de Gadafi.



Assim acabou a glória do homem que durante 42 anos governou a seu povo com mãos de ferro. Assim terminou a vida de quém se fez chamar rei de reis; passeou desafiante por grandes cidades do mundo, recebido com honras de Estado nas principais democracias ocidentais, Espanha incluída, que buscavam nele o petróleo para suas indústrias.



Uma vez mais se cumpriu a divina escritura: “Toda carne (pessoa) é erva, e toda sua glória como a flor do campo” (Isaías 40:6).



Na realidade. Onde foi parar a glória do grandeNabucodonosor, fundador de Babilônia e dos jardins suspensos? Onde está a glória de Alejandro Magno, o guerreiro que lamentava não ter mais mundos que conquistar, morto de malária aos 33 anos? Onde foi parar a glória de Júlio César, atravessado pelo punhal de Marco Bruto ao pé da estátua dedicada a Pompeyo? E a glória de Napoleão, o Alejandro Magno dos tempos modernos, abandonado na solitária ilha de Santa Elena, apodrecido por uma enfermidade cancerosa? Que se fez da maldita glória de umLenin, umStalin, umHitler, umMussolini?



Homens exaltados à glória terrena acabam como eles, como acabou Gadafi, em morte, corrupção, podridão.



No catálogo de super-homens furados destaca Felipe II, o todo poderoso filho de Carlos I de Espanha e V de Alemanha. Disse um de seus biógrafos que antes de morrer se fez transladar a O Escorial, obra sua e lugar de sua predileção.



“Seu corpo era uma verdadeira chaga. Corroído pela dor, prostrado num leito que nem sequer se podiam mudar os lençois porque se lhe pegavam às carnes, pragado de gusanos e vermes como enxame entre as úlceras, sem que fosse possível extinguir, permaneceu assim cinquenta e três dias… Doze dias antes de morrer chamou a seu sucessor e lhe disse: “Quis que estivessem presentes para que vejam onde param os reinos e os senhores do mundo”.



No epitáfio de Alexandre o Grande ficaram gravadas estas palavras: “Uma tumba basta a aquele a quém não bastou o universo”.



Diante o horror da morte não contam as crenças.



Mao, o da revolução cultural china, era ateu convencido e militante. Não cria mais além e fez tudo quanto pode para permanecer o mais aqui. Tito, quém se dizia agnóstico, se agarrou com desesperação a seus últimos dias; se resistia a abandonar o chão sem céu da Yugoslávia que havia reconstruido. Bumedian, crente até o fanatismo na religião de Mahommad, fez que o levassem a Argélia desde Alemanha material médico e especialistas que atrasaram sua morte. Einstein, judeu, morreu dando gritos de remorso por sua contribuição à bomba atômica que tão desastrosos efeitos causou em Japão. Franco, católico, suposto defensor da cristandade, passeou debaixo pálio por catedrais de Espanha, pedia a seu médico pessoal, Vicente Pozuelo, que não o deixasse só no transe da morte, que não o abandonasse. Antes de escapar sua alma desde o madrilenho Hospital La Paz fazia o mais além do mistério, exclamou: “Que duro é isto, doutor!”. E pouco depois: “Deixa-me já!”. O ditador do povo espanhol ao longo de 40 anos quería morrer, como Rilke, de sua própria morte, não a dos médicos.



Tudo isto vem advertindo a Escritura desde tempos remotos. Já Jó se queixava: “Me despojou de minha glória e tirou a coroa de minha cabeça. Me arruinou por todos os lados e pereço; e fez para mim esperança como uma árvore arrancado” (Jó 19:9-10).



A glória humana é um passaporte que abre todas as portas exceto as do céu; proporciona prazeres, mas não felicidade; o brilho e o barro se misturam e a dor acaba com todas as alegrias temporais. Salomão disse que “buscar a glória não é glória” (Provérbios 25:27). A mesma busca é uma tortura. E depois de encontrar se escapa rapidamente das mãos, como o castelo encantado no conto de Tolstoi.



A MURALHA da CHINA, obra do dramaturgo suiço Max Frish, é um belo exemplo de mísera glória humana. Sobre o cenário aparecem homens e mulheres que um dia governaram os povos, entusiasmaram as multidões e fizeram felizes aos homens, com a pobre felicidade da terra. Napoleão Bonaparte, Cristovão Colombo, Poncio Pilatos, Felipe II, Cleópatra. Todos eles admiravelmente caricaturados, reflexos de um passado que eles imaginaram glorioso e que agora reside debaixo das ruínas de uma nova civilização. Como sempre ocorrerá. Assim está escrito. A glória do homem é a nada que se esqueça, ao ontem sem retorno, um aplauso com ecos vazios. Deus disse melhor: “Por isso alargou seu interior o Seol, e sem medida extendeu sua boca; e além descenderá a glória deles, e sua multidão, e seu esplendor, e o que nele se regozijava. E o homem será humilhado, e o varão será abatido, e serão baixados os olhos dos altivos” (Isaías 5:14-15).



Quém até faz pouco tempo foi coronel Muamar o Gadafi forma já parte desse reduzido número de imortais –mortais que passaram pela terra, como a estátua de Nabucodonozor, com cabeça de ouro e pés de barro. Depois da caída da União Soviética a cabeça de mármore de Stalin foi arrastada pelas principais ruas de Moscou. Agora chegou a hora do ditador líbio. Ninguém escapa à sentença divina.





Foto: Copyright (c) 123RF Stock Photos
 

 


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